quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Diário Popular - Crônica: As Gravatas Do Pai, por Mel Fronckowiak

Dentro do armário eu arrumava as gravatas escolhidas dentro das camisas escolhidas. As camisas por sua vez ficavam a esperar a hora dentro dos ternos na combinação que a meninice decidia.

Fechava as portas do armário e escurecia assim a minha primeira tarefa como mulher nesta vida. Eram as gravatas do pai. E não as gravatas apenas, eram as gravatas que ele usaria durante o tempo da minha ausência.

Meu pai brincava de me deixar decidir a roupa que ele usaria na semana que começava em breve. Era um jeito de distrair a minha tristeza nos domingos. Domingo era dia de partida. Dia de fechar as malas e deixar os cheiros da outra casa que agora eu tinha. Dia de ir embora. E depois da função terminada, meu pai me levava para casa de minha mãe e eu sabia que passariam muitos dias sem sentir o cheiro dele.

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Lembro ainda como se fosse hoje, aquelas palavras que ele dizia:

- Filha, vem escolher para mim as gravatas que vou usar no trabalho.

E eu escolhia silenciosa, concentrada em achar que sabia combinar as cores e as texturas dos tecidos.

- Sabe, filha, desse jeito eu vou sempre ter você por perto, mesmo quando você não estiver aqui. Você estará agarrada no meu pescoço como quando a gente se abraça.

E era quando eu me arrumava para ir para a escola, em outra casa, em outra cidade, que pensava na cor que eu seria aquele dia estampando o peito do meu pai.

E quando a gente se falava, durante a semana, naquele tempo que não tinha celular, eu perguntava:

Pai, hoje é dia da gravata rosa na camisa branca, né?

E ele sempre dizia que eu tinha acertado. Sempre dizia que estava muito bonito com a gravata que eu tinha escolhido.

Muito provável que ele adocicasse a conversa para que eu sempre me sentisse presente. E mais ainda provável que ele tivesse que mudar algumas combinações porque a infância não precisa combinar.

Não importava. Era eu que de alguma forma estava lá, decorando a vida do meu pai, enroscada no pescoço dele e dentro dele em forma de saudades.

Muito tempo depois, me pediram ajuda novamente para escolher a gravata.

Não, esta não é a gravata do homem da minha infância, mas do homem que me ampara a vida.

E esta escolha não é para ser usada longe, mas para ser usada ao lado.
É o peito em que eu repouso que eu ajudo a decorar agora. Escolho a gravata cerimoniosamente, desta vez a presença também me permite ajeitar o colarinho da camisa e alisar o terno nas costas largas.

Vou de braços dados com a gravata e com o homem. Vou de salto alto e pinto os lábios para provar para mim mesma que a menina andou crescendo.

A gravata circunda o entorno de duas vidas. A vida quis assim e eu sou mulher de verdade e não apenas de brincar de ser. E agora eu sei que, assim como escolhia gravatas, escolho o meu caminho. E nele ser mulher é como tentar enlaçar o mundo inteiro.

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